Educador emite carta aberta em defesa dos direitos individuais e da liberdade de imprensa em Petrolina

O educador, Elisson César é um dos idealizadores da carta (Foto: Blog Waldiney Passos)

O professor de história Antonio Carvalho dos Santos Junior, enviou ao blog uma carta a favor “da vida, do amor, da liberdade de expressão e da manifestação dos afetos que atravessam a multiplicidade desse mar de gente que é o mundo”.

Veja na íntegra:

“No último dia 12, data comercial atribuída às pessoas que se enamoram, fora exibido pela TV Grande Rio um beijo entre um casal de namorados. Nada de novo sob o sol, caso não fosse o casal composto por dois homens. A exposição repercutiu na Câmara Municipal de Petrolina – PE. O vereador Elias Jardim (PHS), “em nome dos princípios da família e da religião”, queixou-se da matéria exibida e indicou uma moção de repúdio contra a reportagem, ao tempo em que sua indignação encontrou guarida no coro feito por Osinaldo Souza (PTB), também parlamentar da casa Plínio Amorim.Um ataque de extrema hostilidade aos direitos individuais e à liberdade de imprensa, uma tentativa de macular aqueles que manifestam cotidianamente outras corporalidades e afetações que não coadunam com a heteronormatividade/cisnormatividade e, por consequência, aqueles que dão visibilidade às múltiplas expressões de humanidade.

Os dias que seguem nos desafiam a ocupar diversas trincheiras em defesa dos direitos humanos. São tempos em que a radical polarização política faz luzir – ainda que não seja uma novidade – o discurso hegemônico de uma sociedade que defende determinados padrões de relações afetivas e de impressão da cultura nos corpos, relegando à marginalização tudo aquilo que se distancia desses modelos.

Frente aos valores vigentes, sobremaneira disseminados por aqueles que se declaram cristãos, reverbera um arquétipo de família tradicional composta por homem, mulher e sua prole. De tal modo, todos os arranjos familiares e afetivos que não se adequam a este princípio normatizado pelos “bons costumes” são estigmatizados, violentados e, não bastasse isso, amargam o repúdio institucionalizado por parte daqueles que se dizem representantes do povo.

Acontece que representar o povo requer uma postura mais sofisticada, exige de quem se propõe a exercer esse papel a inteligência necessária para se despir de suas idiossincrasias, uma vez que os espaços de debate e deliberação da vida pública não podem ser regidos pelos interesses particulares que vislumbram aqueles que ocupam a política como profissão. Grande parte deles não a exerce por vocação.

Do alto de uma pretensa ignorância habitual, sorrateira e desonesta, sequer demonstram conhecer a constituição federal, pois a lei – esta que por vezes é tão injusta em sua prática – não deixa dúvidas ao definir, em seu artigo 5º, que todas as pessoas são iguais, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Em tempo, a legislação também garante aos veículos midiáticos a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação.

Portanto, se existe alguma insatisfação por parte de uma parcela do poder legislativo petrolinense em decorrência da exposição de um beijo entre iguais, mera manifestação de amor, não deve ser a Câmara Municipal o seu muro de lamentações. Guardem ao recôndito de suas alcovas os ecos das opiniões particulares que se propõem a regular a vida afetiva alheia. É preciso, antes de qualquer coisa, que se dedique à tribuna do povo pautando-se pelas demandas reivindicadas pelo próprio povo, sem privilégios.

Se tivéssemos políticos mais sensíveis a tais demandas, prática onde reside a essência de seu exercício parlamentar, viveríamos indubitavelmente num país em que não se envergonharia por ser a nação que mais mata LGBT no mundo. Viveríamos num país em que diversas expressões de humanidade não seriam invisibilizadas e exterminadas simplesmente porque reivindicam o direito à existência. Por isso, nós é que repudiamos legitimamente – em defesa dos direitos humanos – toda e qualquer iniciativa tendenciosa à marginalização das pessoas que se reconhecem em qualquer espectro de identificação LGBT. A favor da vida, do amor, da liberdade de expressão e da manifestação dos afetos que atravessam a multiplicidade desse mar de gente que é o mundo”.

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