Quatro anos sem o Doutor: O plano de governo que Sócrates apresentou ao Estado de São Paulo

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Poucos jogadores do futebol brasileiro se diferenciaram tanto quanto Sócrates. E não apenas pela classe que apresentava em campo. O Doutor ganhava tanto destaque por seu talento quanto por sua inteligência, expressa em suas atitudes. O craque de temperamento forte não se furtava em falar também sobre a realidade vivida no país, em um momento tão marcante do debate político. Ao lado da Democracia Corintiana, lutou pela redemocratização, e optou por se transferir à Itália quando o movimento das Diretas Já perdeu. Manteve-se firme nos ideais até 4 de dezembro de 2011, quando deixou seus admiradores sem suas opiniões.

Um dos maiores exemplos do pensamento de Sócrates veio em 1982. Naquele ano, o Brasil realizou suas primeiras eleições diretas para o governo dos estados desde a década de 1960, com o início da ditadura militar. A revista Placar convidou jogadores de quatro estados diferentes para formular suas posições, caso fossem candidatos. Mas o jogador, então no Corinthians, foi além. Surpreendeu até mesmo os editores da publicação, ao apresentar um plano de governo alicerçado em cinco questões-chave: educação, saúde, alimentação, habitação e trabalho.

As propostas de Sócrates representam um momento histórico. Porém, não estão necessariamente atreladas às necessidades de São Paulo naquele momento. O projeto formulado pelo meio-campista extrapola isso, pensando em condições básicas para o bem-estar da população – e que, na maioria, deveriam servir como diretrizes para o executivo de qualquer parte do mundo. Além disso, ela não se prende a correntes políticas, firmando como norte o bem-estar da população dentro da realidade capitalista.

Propostas:

Se eu fosse governador…

O ideal público sempre foi um planejamento executivo direcionado para o bem-estar de toda a população, não apenas para parte dela. Assim, tentarei colocar minhas posições sem vinculá-las às dos partidos que disputam as próximas eleições. Não ousarei dizer que são posições eternas, pois nós mudamos, o mundo que nos cerca também muda, e nos modifica. Sei que, no atual momento do país, seria utópico pretender modificações radicais, mas deixo claro que – observadas as condições brasileiras e paulistas – estas seriam as minhas proposições se eu fosse realmente candidato a governador.

Ao contrário de inúmeros postulantes ao Executivo, que colocam como prioritárias as modificações a nível federal, como a reforma tributária, por exemplo, eu me concentraria em posições realistas a nível estadual, que não dependam do Congresso ou do governo central. Espero, sinceramente, que no futuro, todos os homens deste país possam participar da criação de um Estado, bem melhor do que o atual. Isso só será alcançado com a participação de todos.

Democracia é um direito que devemos exigir. Seu exercício, porém, nem sempre é agradável para todos, já que as posições individuais devem ser questionadas e analisadas, antes de se tomar decisões. Após formar sua equipe de trabalho, o Executivo deveria, sempre, atrair todos os segmentos sociais para participarem da execução de seus projetos. Setorizar diretrizes, embora seja mais didático, também é questionável, já que tudo está interligado. De qualquer modo, tentemos. O brasileiro busca, basicamente, trabalho, educação, habitação, saúde e alimentação. Tudo o mais decorre daí.

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– Trabalho: É preciso gerar empregos com estímulo dos órgãos financeiros do Estado e com boa utilização da receita pública, sempre com estudos prévios das necessidades das diversas regiões do Estado. Se houver necessidade de migração de mão de obra, deve ser orientada pelo governo. O governo deve estar preparado para, ciclicamente, mostrar à população as necessidades de emprego em cada região e encontrar soluções para minimizar o desemprego em caso de recessão econômica mais acentuada. É fundamental, também, dar ao trabalhador condições de segurança, bem-estar e transporte. Para isso, o trabalhador deve participar ativamente das decisões que o afetam, e o governo não deve, em nenhuma hipótese, se intrometer nas entidades sociais.

– Habitação e solo urbano: O governo deve incentivar a criação de comunidades – com créditos e orientação – para a construção da casa própria. Deve utilizar todos os seus terrenos ociosos para acelerar essas construções; deve regulamentar todos os loteamentos clandestinos e favelas que já tenham moradores; deve evitar, dando outras opções de moradia, o surgimento de novas favelas e loteamentos clandestinos, além de criar infraestrutura básica para todas essas comunidades, através de luz elétrica, calçamento, rede de esgotos e água encanada. Os projetos devem ser regionalizados, e todos devem ter moradia digna, mesmo não sendo proprietários.

– Saúde: Para melhorar nosso sistema de assistência médica, o primeiro passo é valorizar a profissão, com melhor remuneração e melhores condições de trabalho. Depois, incentivar e financiar a medicina preventiva e de pesquisa.

No caso da medicina curativa, deve ser reestruturado o sistema dos centros de saúde, aumentando a sua autonomia e direcionamento, para que possa cobrir faixas mais amplas da população. Bem aparelhado, um ambulatório pode atender 90% dos casos, evitando excesso de procura de hospitais, o que acarreta o mau atendimento. É também importante aumentar a qualidade do ensino médico, não apenas na USP, como nas escolas do interior. Boa parte do povo é atendida em hospitais-escolas, e estes devem estar mais bem equipados, já que a população que os procura é uma amostra da qualidade de saúde em cada região.

É preciso incentivar o acesso a cursos paramédicos, que são de grande valia num programa global de saúde. Valorizando estes profissionais, melhoraremos sua capacidade de trabalho e cooptaremos muita gente para estas atividades técnicas essenciais.

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– Educação: Primeiro, é preciso valorizar o magistério, com remuneração digna, que elimine a necessidade de acumular empregos e melhore a qualidade do ensino.

O governo tem o dever de proporcionar a toda a população em idade escolar o acesso à instrução. Só faremos um grande país se tivermos um povo culto. Mesmo que tenhamos que subsidiar o ensino, total ou parcialmente. A desnutrição e a subnutrição são incompatíveis com a educação. Tudo deve ser feito para eliminá-las.

O maior problema do ensino médio é que todos os alunos são orientados para chegar à universidade, o que não só é errado, como torna o acesso a esta mais difícil. O governo deve estimular e valorizar o ensino profissionalizante, tornando-o uma opção profissional de nível idêntico ao superior. Isso diminuirá o número de escolas universitárias de baixa qualidade e possibilitará a formação de profissionais mais capacitados.

– Alimentação: Num país essencialmente agrícola, o campo deve merecer amplos recursos, e o Estado deve zelar para que o produtor receba preços justos pelo seu produto, além de impedir que este chegue ao consumidor inflacionado pela presença de intermediários. Cabe ao Estado regulamentar e racionalizar o transporte dos produtos agrícolas, reduzindo os preços atuais e dando condições de aquisição a toda a população.

Para evitar a monocultura, o Estado deve dar igualdade de tratamento, em relação aos preços de mercado, a todos os produtos. Além disso, deve utilizar suas terras ociosas para o aproveitamento por pessoas que queiras trabalhar no campo.

Conclusão: Enfim, todos esses planos podem e devem ser colocados em prática, pois são anseios de um povo que busca o seu bem-estar. Mas só conseguiremos isso quando todos tiverem ampla e total liberdade para se expressar, se informar, participar, escolher e, sobretudo, protestar. Isso é viver com dignidade. (Trivela)

 

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