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Raquel Dodge assume chefia do Ministério Público Federal

Raquel Dodge foi escolhida pelo presidente Michel Temer em uma lista tríplice, em que ela figurava como a segunda mais votada, atrás de Nicolao Dino ( Foto: AGBR )

A nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, de 56 anos, assume com a intenção de mudar o estilo de condução da instituição e mostrar que não vai diminuir o ritmo da Lava-Jato, apesar de ter sido indicada por Michel Temer, alvo de duas denúncias do antecessor Rodrigo Janot. Dodge toma posse hoje em uma rápida cerimônia com a presença do presidente Temer. Ambos devem fazer um rápido pronunciamento.

Janot já avisou que não vai à cerimônia. Adversário de sua sucessora, ele alega que não foi convidado para a posse. Raquel Dodge rebate essa versão e afirma que o chamou por e-mail.

A palavra “discrição” é usada nas rodas de conversa dos assessores e procuradores mais próximos da nova chefe da Procuradoria-Geral da República para denir o estilo dela.

Diferentemente de Janot, Dodge pretende evitar o protagonismo na condução da Lava Jato. Delegou a missão ao procurador José Alfredo de Paula Silva, que vai coordenar o grupo de trabalho da operação dentro da Procuradoria-Geral. Ele atuou na investigação do mensalão e na Operação Zelotes, que investiga esquema de fraudes no Carf, conselho no qual contribuintes recorrem de multas aplicadas pela Receita Federal.

Delação da JBS

Em relação às delações premiadas, Dodge deve fazer um pente-no nas negociações, incluindo a mais polêmica de todas, com os executivos da JBS.

A procuradora tem dito que dará visibilidade a outros temas, como questões ligadas a indígenas e minorias, causas cíveis no STF (Supremo Tribunal Federal) e direitos humanos. Por isso, escolheu para compor sua equipe procuradores que vêm trabalhando com a questão indígena -como Luciano Mariz Maia, novo vice-procurador-geral, e Mara Elisa de Oliveira, que será sua chefe de gabinete.

Primeira mulher a ocupar o cargo mais alto do Ministério Público Federal, Dodge assume sob uma expectativa nada fácil de alcançar: pacificar as relações entre a PGR com o Congresso, o Planalto, o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal.

Ao mesmo tempo, ela toma posse no cargo sob desconfiança, por ter sido indicada por Temer, alvo de duas denúncias de Janot -a última delas na semana passada, por obstrução de Justiça e organização criminosa.

Seu nome teria sido costurado no Planalto pelo ministro Gilmar Mendes (STF), adversário declarado de Janot.

A imagem de Dodge se desgastou depois da revelação de um encontro secreto (não registrado em agenda oficial) que teve com o presidente, após sua nomeação, no Palácio do Jaburu.

Por isso, sua postura na condução da Lava-Jato é vista como um enigma. Enquanto adversários apostam que a nova gestão pode diminuir o ritmo das investigações, aliados dela defendem que seu estilo discreto não é nada incompatível com um comportamento “linha dura”.

O primeiro pronunciamento de Dodge à imprensa será em uma entrevista coletiva, prevista para ser realizada nesta semana. A procuradora, assim, tenta passar uma mensagem de que não vai priorizar nenhum veículo de comunicação. A assessoria da procuradora disse à reportagem que a nova equipe da Procuradoria “atuará de acordo com a orientação” dela, com “discrição, seriedade e firmeza”.

Além de José Alfredo de Paula Silva na Lava-Jato, Dodge nomeou Raquel Branquinho para cuidar das investigações criminais de políticos com foro no Supremo Tribunal Federal.

Dodge terá de reconstruir pontes com a PF, que enfrentou desavenças com Janot principalmente em torno das delações premiadas.

Nova PGR é vista como ligada a questões sociais

Nascida em Morrinhos, interior de Goiás, Raquel Dodge é formada em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Ela fez pós-graduação em Harvard e ingressou no MPF em 1987. “Eu não diria que Raquel é uma feminista, mas é uma pessoa ligada às questões sociais”, afirmou o procurador regional da República Marcelo Antônio Ceará Serra Azul.

Aos 56 anos, Raquel teve a campanha mais visível e abrangente na campanha para titular da PGR. Ela lançou o mote de sua candidatura: “Ninguém acima da lei Ninguém abaixo da lei”. Alguns de seus pares viram no “lema” uma alfinetada em Rodrigo Janot. Ela ficou em segundo lugar na lista tríplice, atrás de Nicolao Dino. A Constituição não obriga o presidente a escolher o primeiro colocado.

Raquel foi coordenadora da Câmara Criminal do Ministério Público Federal. Atuou na equipe que redigiu o I Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil.

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